Balé mudo
É como se o silêncio se refugiasse em baixo d’água, tecendo uma trama inaudível que transcende a compreensão humana. As criaturas dançam em um balé mudo. Nesse reino submerso, o silêncio não é ausência, mas sim uma presença palpável que envolve cada criatura que ali está. É um silêncio que ultrapassa a barreira da linguagem, um eco que ressoa nas profundezas, como se as águas, em sua tranquilidade sussurrante, guardassem os mistérios do universo em seu abraço líquido...
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Em Otelo, Shakespeare cria em Iago uma figura singular: alguém capaz de fabricar realidades a partir de fragmentos. Sua força não está na mentira, mas na construção de narrativas plausíveis. A partir de indícios dispersos, ele produz uma versão dos acontecimentos que passa a existir porque alguém acredita nela.
Algo semelhante acontece aqui.
As crianças que aparecem nestas imagens nunca existiram. A cena jamais aconteceu da forma como a vemos. Ainda assim, reconhecemos nela algo familiar. A água, as máscaras, os gestos e os olhares organizam-se em uma narrativa silenciosa que parece carregar uma memória coletiva.
Assim como Iago em Otelo, a imagem fabrica uma narrativa capaz de parecer verdadeira. Não porque reproduz um acontecimento, mas porque organiza indícios suficientes para que a imaginação complete o restante.
Os corpos são construídos. A experiência que eles evocam é real.



