Labirinto Interior
Há, nesta série, um movimento de recuo. Não um afastamento do mundo, mas um deslocamento para dentro. Como se cada imagem fosse um passo em direção a uma zona mais densa, mais silenciosa, menos nomeável da experiência.
Se em Robert Frank o gesto fotográfico se afirmava como deriva, uma travessia pelo mundo guiada pela intuição e pela fricção com o real, aqui essa deriva se dobra sobre si mesma. O percurso já não é horizontal, mas vertical. Desce.
O ponto de partida ainda é reconhecível: um corpo, um interior doméstico, uma janela, um corredor. Fragmentos de realidade que carregam a promessa de uma narrativa. Mas essa narrativa nunca se resolve. Ao contrário, ela se adensa. A cada imagem, o espaço se estreita, a luz se torna mais escassa, as formas se inclinam. A arquitetura deixa de ser cenário e passa a operar como estrutura psíquica.
Nesse sentido, o trabalho encontra ressonância com Duane Michals, sobretudo na sua capacidade de insinuar o invisível dentro da imagem. Mas enquanto Michals frequentemente organiza suas imagens em sequências que apontam para uma construção narrativa explícita, aqui a sequência é implícita, quase subterrânea. O que se constrói não é uma história, mas uma sensação de desorientação contínua.
A presença da inteligência artificial intensifica esse desvio. Não como artifício espetacular, mas como uma força que tensiona a lógica do espaço e da luz. Perspectivas se distorcem, proporções vacilam, sombras se alongam de maneira quase impossível. A imagem já não descreve um lugar, ela produz um estado.
Há algo de onírico, mas não no sentido de sonho leve. Trata-se antes de um sonho denso, por vezes opaco, onde o tempo parece suspenso e o corpo, isolado, torna-se medida do espaço. O sujeito não atravessa o labirinto, ele é atravessado por ele.
Ao tensionar os limites entre fotografia e construção algorítmica, a série propõe uma imagem que não busca afirmar uma verdade, mas experimentar sua instabilidade. O que vemos talvez tenha existido, mas já não existe da mesma forma. Foi reconfigurado pela memória, pelo tempo e por uma tecnologia que, aqui, atua menos como ferramenta e mais como coautora de um imaginário.
No fim, não há saída. Ou talvez não haja necessidade dela. Ou será que existe mesmo o fim? O labirinto não é um lugar a ser resolvido, mas um espaço a ser habitado.
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