Transe
Entre confetes e sombras,
a poesia se entrelaça
e o labirinto do Carnaval
é o palco onde a vida passa....
A série “Transe” foi construída a partir de fotografias realizadas em um carnaval de rua, espaço de suspensão, excesso e dissolução das formas estáveis do corpo e da identidade. Captadas em preto e branco e muitas com longas exposições, as imagens recusam o instante decisivo e se inscrevem em um tempo dilatado, onde movimento, luz, presença e o imaginário se acumulam na superfície fotográfica. A fusão transforma o corpo em rastro. Braços, brilhos, transpiração, tecidos e gestos não se fixam. Vibram, escorrem, se sobrepõem. O que se vê não é o corpo isolado, mas o corpo em fluxo, atravessado pela música, pelo coletivo, pela vertigem própria do carnaval. A rua deixa de ser cenário e passa a operar como campo sensorial, onde tudo se mistura: saliva, poeira, fumaça, luz artificial e pulsação.
Sobre as fotografias registradas, a Inteligência Artificial foi introduzida como uma segunda instância de mediação. Não para corrigir ou simular realismo, mas para intensificar o estado de instabilidade já presente na imagem. A IA atua como um agente de deslocamento, reorganizando volumes, ritmos e continuidades, amplificando falhas e desfoques, produzindo imagens que oscilam entre o reconhecível e o estranhamento…
O preto e branco reforça essa operação ao subtrair a informação cromática e concentrar a experiência visual na matéria do gesto, da luz e do contraste. A ausência da cor desloca o carnaval de seu imaginário espetacular e o reinscreve em uma dimensão quase atemporal, onde o corpo aparece como força, não como ornamento. Impressas em Fine Art, as imagens materializam sobreposições e os acidentes visuais, convidando o olhar a percorrer camadas de tempo condensadas em um único plano. O resultado são imagens híbridas, nas quais fotografia e algoritmo coexistem em tensão, produzindo um campo visual onde documento e fabulação se contaminam.
Entre a experiência física da rua e a lógica abstrata da máquina, esta série propõe uma reflexão sobre presença, memória e transformação da imagem contemporânea. O carnaval aqui não é apenas tema, mas método: um estado de desordem produtiva onde o corpo se desfaz para, continuamente, se reinventar.
“Transe” se aproxima de um estado de suspensão, mas também carrega, em sua sonoridade, a forma de um verbo imperativo. Um chamado. Uma espécie de comando interno. Entre o impulso de se lançar ao mundo e a impossibilidade de fazê-lo plenamente, o trabalho se constrói nesse intervalo. As imagens não resolvem essa tensão, elas a mantêm ativa.
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