Nheco Nheco Chique Chique Balancê
As imagens desta série habitam um território ambíguo, um limiar onde o registro documental se dissolve e se reconfigura através da mediação algorítmica. Partindo de uma situação reconhecível com corpos em celebração, reunidos em um espaço coletivo, atravessados por rituais, ornamentos e desejo, a fotografia deixa de ser apenas testemunho para tornar-se também fabulação.
O gesto inicial é fotográfico: presença, proximidade, intuição. Um olhar que se infiltra na densidade da multidão, captando fragmentos de intimidade em meio ao excesso. No entanto, é no pós-processo, atravessado pela inteligência artificial, que essas imagens se deslocam de seu estatuto original. A IA não opera aqui como ferramenta de correção, mas como agente de instabilidade, expandindo, distorcendo e reescrevendo a superfície do visível.
O resultado é uma espécie de hiper-realidade sensorial: a luz se intensifica, as texturas ganham densidade quase tátil, os corpos parecem ao mesmo tempo mais presentes e mais espectrais. Há uma suspensão temporal onde não estamos exatamente no instante capturado, mas em uma memória reconstruída, talvez sonhada.
Nesse contexto, o corpo assume centralidade. Corpos masculinos, adornados, performáticos, em tensão entre força e vulnerabilidade. Corpos que se tocam, se exibem, se escondem. O beijo emerge como um ponto de condensação: gesto íntimo dentro de um espaço público, atravessado por camadas de identidade, pertencimento e desejo.
Ao inserir a inteligência artificial no fluxo da criação, a série tensiona também a própria noção de autoria e verdade fotográfica. O que vemos ainda é documento? Ou já é uma ficção construída a partir do real? A imagem, historicamente associada à evidência, aqui se torna instável em um campo onde memória, tecnologia e imaginação se contaminam mutuamente.
Essas fotografias não procuram responder, mas expandir a pergunta: o que significa ver e acreditar em uma imagem hoje?
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