Quando a criança era criança
"Quando a criança era criança, andava com os braços balançando.
Queria que o córrego fosse um rio, o rio uma torrente... e que esta poça fosse o mar.
Quando a criança era criança, não sabia que era uma criança.
Tudo era cheio de vida, e a vida era única.
Quando a criança era criança, não tinha opinião sobre nada.
Não tinha hábitos.
Sempre sentava com as pernas cruzadas,
Saía correndo... os cabelos eram desarrumados, e não fazia pose quando fotografada.
Quando a criança era criança, era o momento das seguintes perguntas:
Por que eu sou eu e não você?
Por que estou aqui e não ali?
Quando começou o tempo, e onde acaba o espaço?
A vida sob o sol é apenas um sonho?
Não seria o que vejo, escuto e cheiro apenas uma visão do mundo antes do mundo?
Como pode ser que eu, que sou eu, antes de chegar a sê-lo, não fosse?
E que eu, sendo quem sou, algum dia não serei eu mesmo?
Quando a criança era criança, achava muitas pessoas belas, mas agora... raramente.
A criança imaginava claramente o Paraíso, e agora só consegue suspeitar como seria.
Não podia imaginar o vazio, e hoje se estremece com a ideia.
Quando a criança era criança, brincava com entusiasmo... e agora tal entusiasmo só acontece com muito esforço.
Por que todos não enxergam, tal qual as crianças, os portos, os portais e as aberturas que existem abaixo na terra e acima, no céu?
se todos os vissem, haveria uma história sem assassinatos e sem guerra." - Wim Wenders (Der Himmel über Berlin, 1987)
A imagem aqui não parte da fotografia, mas de uma construção inteiramente sintética. O ponto de partida é menos um referente visual e mais um estado: a sensação de presença suspensa, de observação sem pertencimento. Um olhar que existe, mas não interfere. As imagens se organizam em torno de uma figura isolada, frequentemente reduzida à escala mínima, confrontada por um espaço vasto, silencioso e instável. Luz e cor não operam como descrição, mas como campo de afecção. O espaço não é geográfico, é perceptivo. A referência ao imaginário de "Asas do Desejo" não se dá como citação, mas como aproximação de uma condição: a de um corpo que observa o mundo sem poder habitá-lo plenamente. Ao abdicar da fotografia como ponto de partida, o trabalho tensiona a relação entre imagem e experiência. O que se vê não é memória, nem registro, mas projeção. Um espaço onde a presença se torna difusa e o mundo, distante.
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