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Transe
 

Transe revisita fotografias de arquivo pessoal de carnavais, não como documentos fixos, mas como matéria instável. Longas exposições, conversão ao preto e branco e processos mediados por IA registram a continuidade da experiência coletiva, não o seu momento decisivo. A série emerge de um período de restrição física: pós-parto, a doença de uma mãe, uma separação. Um tempo em que o corpo festivo foi substituído por um corpo governado pelo cuidado e pelo contínuo. O trabalho se apropria da lógica de dissolução do Carnaval para reconstruir o que não pôde ser vivido diretamente.

A série “Transe” nasce de um momento de ruptura e reconfiguração profunda da experiência do corpo e da presença. Desenvolvido durante o puerpério, em um período atravessado simultaneamente pela maternidade recente, pelo acompanhamento do tratamento de câncer da minha mãe e por uma separação conjugal, o trabalho emerge de uma vivência marcada pela exaustão, pela sobrecarga emocional e pela restrição radical do espaço de ação no mundo. Nesse contexto, o corpo deixa de operar como vetor de liberdade e passa a existir sob a lógica da responsabilidade, do cuidado e da contenção. O tempo se fragmenta, a experiência se comprime e a presença se torna difusa.

 

O carnaval, tradicionalmente associado ao excesso, à expansão e à dissolução das estruturas normativas, surge aqui como um contraponto simbólico. Durante o período em que o trabalho foi concebido, não houve vivência direta dessa experiência coletiva: a rua foi atravessada apenas em deslocamentos funcionais como consultas médicas e tarefas cotidianas, percursos necessários. O estado de festa foi substituído por um regime de controle e urgência.

 

Diante dessa impossibilidade de participação, o trabalho se inicia a partir de um gesto de retorno. Fotografias de carnavais anteriores, armazenadas em arquivos pessoais, são revisitadas não como documentos fixos, mas como matéria instável, passível de transformação. A memória deixa de ser um lugar de preservação e passa a operar como campo ativo de reconstrução.

 

As imagens, convertidas para preto e branco, muitas delas com longas exposições, já recusavam a lógica do instante decisivo. Em vez de fixar o acontecimento, registravam sua duração: corpos em deslocamento, gestos que se dissolvem, luz que se acumula. O corpo aparece não como forma estável, mas como rastro, atravessado pelo coletivo, pela música, pelo contato e pela vertigem. Ao longo do desenvolvimento da série, o trabalho se constrói a partir de um processo contínuo de experimentação. A produção das imagens não segue uma lógica linear ou previamente determinada, mas se estabelece por meio de sucessivas tentativas, aproximações e desvios.

 

O conjunto apresentado em “Transe” constitui, portanto, um recorte, uma seleção intuitiva construída a partir de afinidades visuais e conceituais que emergiram ao longo do processo, mais do que de uma ideia inicial completamente definida. As imagens resultam, muitas vezes, da sobreposição de diferentes fotografias, nem sempre pertencentes ao mesmo contexto. Registros de carnavais se misturam a retratos, gestos isolados e fragmentos de outras situações, criando composições híbridas onde o tempo e o espaço deixam de ser contínuos.

Elementos como fumaça, plumas, sombras, suor e partículas luminosas são incorporados não como adição decorativa, mas como extensões do próprio estado de transe, intensificando a sensação de dissolução e instabilidade do corpo. Nesse processo, a Inteligência Artificial é introduzida como uma segunda instância de mediação, não como ferramenta de correção ou simulação do real, mas como agente de deslocamento e intensificação. A IA atua sobre a imagem ampliando suas instabilidades, reorganizando volumes, expandindo desfoques e criando continuidades impossíveis.

 

Essa operação tensiona a própria natureza da fotografia. Se tradicionalmente associada à captura e à fixação do real, aqui a imagem se aproxima de um estado processual, onde diferentes temporalidades e camadas de experiência coexistem em um mesmo plano.

 

O uso do preto e branco reforça essa suspensão ao retirar a dimensão cromática do carnaval e deslocá-lo de seu imaginário espetacular. O que resta é a matéria do gesto, da luz e do contraste em uma experiência mais próxima da sensação do que da descrição.

 

Impressas em Fine Art, as imagens materializam essas sobreposições e acidentes visuais, convidando o olhar a percorrer um campo denso, onde o tempo não é linear, mas condensado.

 

Entre a experiência física que não pôde ser vivida e a construção imagética que a reconfigura, “Transe” se estabelece como um espaço de tensão. Um lugar onde o corpo, impedido de estar plenamente no mundo, passa a existir como memória, projeção e transformação contínua.

 

Mais do que representar o carnaval, o trabalho se apropria de sua lógica: um estado de suspensão das formas estáveis, onde identidades se desfazem e se reinventam. “Transe” opera, assim, como condição e como verbo imperativo: um chamado para atravessar, ainda que por outros meios, aquilo que não pôde ser vivido diretamente.

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